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Sunday, February 07, 2010

AR: Ampliando a Prática Vegana: um processo libertário

O que é o Veganismo? Um conjunto de práticas pré-estabelecidas? A defesa de certas linhas argumentativas? A defesa de certas posições filosóficas? Um modo de ser de alguns indivíduos? Certos padrões de consumo? Minha idéia é que o Veganismo está nestas opções, mas talvez seja algo que - ao mesmo tempo - é anterior a elas, as transcende e é por elas alterado: algo como um princípio, uma essência dos comportamentos.

Uma essência que pode ser expressa racionalmente de várias formas, como esta: achamos errado tratar um ser senciente de qualquer espécie como propriedade e, portanto, tratá-lo do modo como nós, humanos, achamos que devemos tratá-los, de acordo com nossos próprios interesses. Desta essência, ou de algo com este espírito, muitas conclusões são possíveis e muitas atitudes diferentes podem derivar destas conclusões.

Tenho a impressão de que este princípio vegano, ainda que possa ser expresso assim, organizado racionalmente, não nasce já assim, racionalizado. Nasce mais no âmbito do sentir do que da razão. Aí sim vai sendo sempre retrabalhado pela razão, gerando novos sentimentos e novas racionalidades. E a transmissão destes argumentos racionais para outras pessoas só torna-se uma nova prática em cada indivíduo quando consegue tocar e modificar sentimentos e sensibilidades.

De qualquer maneira, a questão é que se esta essência vegana estiver em uma pessoa – não apenas como um conjunto lógico de argumentos racionais que podem ser redigidos e transmitidos a outras pessoas mas não necessariamente seguido como um modo de viver, não embasando emoções e atos – muitas atitudes diferentes poderão decorrer.

Algumas atitudes são já mais notórias socialmente – ao menos entre a população vegana e simpatizantes -: as discussões e ações do direito animal, as discussões éticas na filosofia, a crítica à vivissecção, o vegetarianismo, a crítica ao uso de animais em circos, rodeios, etc.

Porém, ainda podemos ir além e questionar outras práticas que contrariam o Veganismo, ou seja, que tratam os outros animais como não dignos de valor e respeito, causando-lhes sofrimento, tortura, morte, necessidade de fuga, destruição de seus locais de residência, busca por comida, companhia e reprodução.

Cabe criticar, portanto, ações que tratam o planeta como propriedade exclusiva dos humanos (e de alguns humanos mais do que dos outros). A crítica a esta posição pode levar a uma vontade de ruptura radical com as próprias bases disto que chamamos de civilização. De qualquer forma, o que pode ser feito já hoje? O que pode ser construído para o futuro? São discussões que nós veganos precisamos encarar e mudanças que precisamos tentar alcançar.

A seguir aponto duas possibilidades de ampliação da agenda vegana que, muitas vezes, são colocadas como periféricas às preocupações centrais do Veganismo: a questão ecológica e a questão da saúde humana.

Ecoveganismo

Um caminho de fundamental importância é a aproximação do Veganismo com as discussões ambientalistas (e suas implicações políticas, econômicas, culturais). É pensar o Veganismo não apenas como uma opção de consumo – o que apenas possui poder transformador até certo nível -, mas, principalmente, como a construção de outros modos de viver e se relacionar; a construção de outras culturas, de outra forma de estar inserido no todo, na natureza.

Respeitar os ecossistemas é tão fundamental quanto respeitar os indivíduos. A própria oposição entre os dois já é problemática. Não há respeito a um sem respeito ao outro, pois são a mesma coisa. Todos os indivíduos da natureza dependem, para sobrevivência própria, das inúmeras relações ecossistêmicas nas quais está inserido. A vida é um infinito conjunto de relações, que devem ser respeitadas tanto quanto o direito de cada ser de viver em liberdade de acordo com seus próprios interesses (mesmo que sejam interesses da espécie toda). E mais: o “todo”, a “natureza”, não é algo que exista em si, como um ser autônomo. É o resultado da união dos seres e fenômenos individuais. “Natureza” é uma abstração humana.

É preciso pensar, então, naquilo que é, certamente, altamente prejudicial – ou melhor, destrutivo - aos ecossistemas e toda vida que há nele. Exemplos muito comuns: exploração de matéria-prima em escala industrial. Criação de substâncias sintéticas, tóxicas, cancerígenas, altamente poluentes. Uma cultura fundada na petroquímica. Agrotóxicos. Mega-máquinas agropecuárias. Agropecuária. Pecuária. Monocultura. Latifúndio. Alimentação industrial. Medicação industrial para doenças industriais. Excreção de excrementos com toxinas, hormônios, medicamentos, resíduos de plásticos, antidepressivos, anticoncepcionais, substâncias sintéticas, substâncias petroquímicas... Etc. etc. etc.

Estas coisas são tão violentas com os animais e com toda a vida quanto outras violências contra as quais já nos opomos. Se já demos passos tão grandes, virando veganos, porque não ir ainda mais fundo do problema? Talvez pareça loucura, se pensarmos que nem o que já propomos é ainda bem recebido socialmente, quanto mais romper com os próprios paradigmas da civilização, cujo pilar é a crença que toda a natureza está aí apenas para servir aos interesses humanos e pode ser modificada tanto quanto quisermos para servir melhor aos nossos interesses. Eu acho que pode ser loucura, passos maiores do que nossas pernas, mas também pode ser o exato oposto: só com um rompimento mais profundo e o exemplo de que é possível viver de forma melhor em outros modelos de mundo é que mais pessoas perceberão que a vida pode ser muito mais digna para todos, seja de que espécie for. E não é nada extremamente complicado. Certamente menos complicado do que nossas inacabáveis jornadas de trabalho, circulação urbana, contas, impostos, anos de educação para o mercado, má alimentação, péssima saúde, nervosismo, angústia, solidão, dificuldade de concentração, dificuldade de convivência, etc.

Cabe ao vegano, então, além de não consumir produtos advindos da exploração direta de animais, preocupar-se também com os danos ecológicos e ecossistêmicos de seus atos. Algo difícil de realizar neste modo de vida ao qual fomos ensinados a viver, com estes modelos de urbanidade, com nossa cultura de consumo, controle e massificação. Mas necessário. O que fazer então? Outros mundos fazem-se necessários. Serão ainda possíveis?

Saúde vegana

Um dos maiores preconceitos em parte das argumentações de veganos é em relação às preocupações com a saúde individual. Prega-se que o Veganismo é uma questão ética que diz respeito apenas a nossa relação com outros animais, não com o como cuidamos de nosso próprio corpo. Mas será que há mesmo, do ponto de vista ecossistêmico, esta oposição? Respeitar outro ser independe do quanto você respeita a si mesmo? Respeitar a si mesmo independe de quanto você respeita outro ser? Há uma relação entre o que come e como percebe e pensa o mundo?

Alimentação saudável é uma questão ecológica – interna e externa; é a opção de como nos conectaremos nas cadeias alimentares. Optar envolve consciência, pensamento, coragem, fé, aposta. Não é algo óbvio. Daí nossa necessária natureza ética.

A alimentação padrão da humanidade urbanizada contemporânea depende de extração de matéria-prima em escala industrial, monoculturas, latifúndios, agrotóxicos, gera uma quantidade enorme de lixo industrial altamente poluente, empesteia os solos, águas e ares com produtos químicos, tóxicos, sintéticos, gera péssima saúde em pessoas que passam a usar medicamentos que poluem ainda mais, gera excrementos humanos contaminados indo para solos, águas e ares, expulsa os animais das áreas de plantio e extração de matéria prima, poluem os outros lugares, pois a poluição percorre por águas e ares todo o planeta, etc. Ou seja, a preocupação com o que comer é central nas preocupações ecoveganas acima apontadas. Alimentação ética, para mim, vai além de conter ou não ingredientes de origem animal.

É urgente que pensemos em formas diferentes de produzir e consumir nossa comida, assim como no que devemos ou não ingerir. O que é alimento e o que é apenas mastigável. Precisamos de um padrão alimentar que respeite, o máximo possível, todas as formas de vida. Inclusive nós mesmos.

É clara a relação entre o que se come e como se percebe o mundo. Entre alimentação e vitalidade, concentração, saúde. Basta tentar, abandonar alimentos industriais, processados, refinados, sintéticos, e verão o que muda em vossos corpos e mentes. É uma mudança incrível para os indivíduos e, ao mesmo tempo, em nossa relação com todos os outros seres que dividem o planeta conosco e possuem o direito de continuar vivendo, se alimentando, se locomovendo, se reproduzindo, etc. tanto quanto nós mesmos.

Por um Veganismo libertário

Deveríamos nos apropriar do discurso ambientalista e transformá-lo, adicionando nossas preocupações, e não negá-lo como periférico às preocupações veganas. Não há esta diferença entre a questão ética do Veganismo e a questão ambiental que muitos continuam a reproduzir.

Deveríamos nos apropriar das discussões sobre saúde e alimentação e transformá-las, adicionando nossas preocupações, e não negá-las como periféricas às preocupações veganas. Não há esta diferença entre a questão ética do Veganismo e as questões relativas à saúde que muitos, também, continuam a reproduzir.

Ser apenas um consumidor de produtos industriais sem ingredientes de origem animal e não testados em animais, apesar de ser uma atitude nobre e importante, algo fundamental que pode ser feito de uma hora para outra por qualquer pessoa, não será algo suficiente para transformar as bases, os fundamentos de nosso modo de vida violento, injusto e destruidor.

É preciso, então, pensar nesta idéia de um Ecoveganismo: Veganismo no que se refere ao trato e respeito a cada animal como indivíduo, como merecedor de respeito aos seus interesses específicos, como não passível de ser propriedade de outro ser: como ser livre. “Eco” no sentido de que esta preocupação é inseparável da preocupação com aquilo que é coletivo por princípio, que embasa e possibilita a vida – e a qualidade da vida – de todos estes seres: este infinito conjunto de relações e transformações ao qual em nossos conceitos abstratos chamamos de natureza. O termo “eco” vem da palavra grega “oikos”: casa. É este todo formado pelas relações entre tudo o que há, seres vivos, minerais, gases, águas, dinâmicas de relevo, hídricas, atmosféricas, tectônicas, etc.

É preciso então uma ética que considere tanto o coletivo quanto os indivíduos: que não anule os indivíduos no coletivo (como o ambientalismo tradicional e a cultura humana dominante massificadora e alienante), mas que também não anule a importância do coletivo em nome de interesses individuais. É uma relação delicada, mas possível de ser construída.

Um fundamento ético importante é a oposição ao uso de outro ser senciente para a realização dos próprios interesses: não possuo o direito de tratar outro ser senciente como propriedade ou usá-lo, sem consentimento, para a saciedade de meus próprios interesses, assim como ninguém tem o direito de exercer propriedade sobre mim ou me usar, sem meu consentimento, para a saciedade seus próprios interesses. Não há porquê, eticamente, não estender o princípio da liberdade para seres de outras espécies. Assim, o Veganismo não é algo à parte da ética humana. É uma tentativa de viver o mundo com respeito às liberdades individuais desde que a liberdade de um não envolva a liberdade de usar o outro para seus próprios fins: precisamos criar um mundo onde a realização de um não signifique a exploração do outro e do que é coletivo. O Veganismo, assim, é um processo libertário. E quem sabe um dia não seja uma lembrança histórica sobre o processo de constituição do modo comum de se pensar?